Esqueci-me do teu nome
O corpo de Mary começa a tremer de vez em quando e não lhe permite fazer algo tão simples como pegar num copo cheio de água. Simples, digo eu, que não tremo.
Mary já não conhece a própria filha. Já não se lembra do seu nome, do seu cheiro, de como foi feliz com o seu marido nos tempos de juventude e de como se pode gabar de ter tido uma adolescência feliz e de luxo, coisa muito rara naquela época.
A filha, Julie, tinha agora de cuidar dela, tal como Mary tinha feito com ela. Os papéis inverteram-se, a vida assim o quis, assim o ditou, assim o exigiu. Mas não é fácil. Mary começava a perder as suas capacidades que, até então, ainda iam aliviando um pouco o corpo e a alma de Julie. Principalmente a alma.
- Bom dia, mãe - diz Julie.
O silêncio e o olhar vazio e vago presente na face de Mary é assustador.
- Esqueci-me do teu nome.
- Não faz mal não te lembrares. Eu sou tua filha, chamo-me Julie. Sabes que dia é hoje?
- Sei - responde Mary.
- Então que dia é hoje, mãe? - questiona.
- Hoje é sábado.
- Boa! É sábado, mãe.
Claro que não é sábado. É quinta feira e Julie derrama pequenas lágrimas enquanto levanta a mãe e a ajuda a caminhar até à cozinha para tomar o pequeno-almoço.
- O que queres comer hoje?
- O mesmo que o teu pai.
Julie não quer ter que explicar novamente que o pai já faleceu há quase 12 anos, mas tem que ser. Mais uma vez. Mais um dia. Mary chora e grita ao saber da notícia, como se fosse a primeira vez que o estivesse a ouvir. E não era.
É triste quando vemos alguém definhar dentro do próprio corpo, lutar dentro de si mesmo por uma vida numa realidade que não existe, escavar buracos para tapar outros ainda maiores. E enquanto a cura para esta luta não vem, devem agarrar-se ao seu imaginário ou afundar o olhar triste e apagado num buraco negro ainda maior?
